Nossas Vozes
Relatos individuais
Ana Carolina

Talvez as únicas palavras que possam descrever o que eu estava sentindo antes, durante e depois do evento são: o que eu estou fazendo?
Isso tudo porque nunca imaginei vivenciar nada disso, mas devo conversar que não foi uma experiência ruim.
O dia começou tranquilo e bonito em São Bernardo do Campo, passeamos bastante pela faculdade pois não fazia sentido para a maioria de nós voltar para a casa, até ficamos um tempo num lindo jardim que tem dentro do prédio Delta. Depois de umas boas horas fomos no McDonald's e jantamos antes de ir para a praça matriz, afinal sabíamos que voltaríamos tarde e não conseguimos comer por lá. Já na área da batalha algumas coisas me surpreenderam positivamente, o lugar era iluminado e havia uma viatura de polícia, como eu não sabia muito o que esperar me senti mais segura com isso. Após tirarmos muitas fotos e encontramos a maioria do grupo, fomos nos aproximando do palco (que era um banco com algumas luzes) e conversamos com várias pessoas que participavam de diversas formas do evento, inclusive crianças, o que me deixou um pouco chocada pois havia muita droga e bebida. Nesse meio tempo encontramos o outro grupo e isso até me tranquilizou um pouco por ver mais alguns rostos conhecidos.
Quando a batalha começou já estávamos "acomodados" em um ponto mais alto para captar boas imagens, assistimos a uns 4 rounds de batalhas na qual fiquei maravilhada com as rimas e a participação do público, todo mundo gritava e aplaudia os cantores conforme eles iam ganhando nas rimas, eu gostei demais dessa energia.
Por volta das 9 horas da noite eu e a Marcela fomos em bora de uber para a casa dela, não havia a menor condição de voltar para Mogi esse horário. Já estávamos bem cansadas então nos arrumamos e fomos dormir, mas devo confessar que tanto a noite como na manhã seguinte (e durante uma semana inteira) tinha uma voz na minha cabeça gritando: Essa é a Batalha da Matrix, a mais foda do ABC... e o que você quer ver? SANGUE, SANGUE!
Enfim, depois dessa baita experiência o que tenho a dizer é que fui muito surpreendida e que ficou uma ótima história para contar, cada evento é único e com certeza não vou me esquecer desse tão cedo.
Clara

O evento foi, sem dúvidas, uma experiência única. Não apenas no seu decorrer, mas em cada momento antes dele. Em resumo do que antecedeu a Matriz, tinha sido um dia normal com aulas que gostei muito. Almocei no campus e passei parte da tarde nele (inclusive para assistir a palestra que teria) já com parte do meu grupo, a Julia, Nick, João, Ana e Marcela. Andamos, observamos coisas, conversamos e até jogamos juntos. Ficamos um tempo lá, até decidirmos sair para comer algo no Mc Donalds próximo antes de irmos.
A ida foi simples. Chegamos um pouco antes do início do evento. Isso é algo que me deixou feliz, considerando que conseguimos observar a chegada da maioria do público e até acompanhar a montagem próximos de onde ocorreria a performance. Consegui também ver muito do ambiente e seus detalhes (como os grafites nas paredes, a área comercial dos líderes da Matriz e bandeiras do evento penduradas). o que foi bem interessante.
A igreja e a escadaria próximos da praça se destacaram para mim. Mesmo não sendo o foco do passeio, admito que foram as primeiras estruturas a me chamar a atenção. Algo estava acontecendo dentro dela e a arquitetura era facilmente visível de fora. Logo no começo, enquanto nos organizávamos para fotos, era fácil me perder encarando ela. O mesmo para o bairro vivo e cheio de comércios abertos cercando-o. Dito isso, assim que o horário de início se aproximou fomos para o foco principal.
Da minha experiência, dessa parte relatada em diante, talvez tenha sido a parte mais diferenciada de tudo que já vi. Pela primeira vez, assisti a uma batalha de rap. Os temas, letras, dinamicidade, a ideia da improvisação e a interação entre público e artistas são diferentes de tudo que já experienciei antes. A multidão parecia animada e ao mesmo tempo confortável no local, bebiam e interagiam em rodas facilmente. Eles livremente socializavam e se sentavam onde preferiam. O som vinha de algumas conversas, mas principalmente das caixas e do centro, onde competidores duelavam musicalmente. Para ver o evento, ficamos próximos de onde estava concentrada boa parte do público (nesse momento que me refiro estávamos divididos, e eu estava vendo as batalhas perto do João, a Julia e a Ana).
Por minha altura, dependi mais da audição do que da visão para aproveitar a apresentação, não que tenha me importando com isso. O cheiro do ambiente por outro lado (maconha e álcool) me perturbou.. Tínhamos todos funções que cumprimos, incluindo gravar, fotografar e observar certos fatores, no meu caso e das pessoas que me acompanhavam. Acho que isso me fez perceber o todo muito mais atentamente que o habitual.
Ainda assim, como uma pessoa relativamente introvertida, acostumada a eventos menores (principalmente com amigos ou família) ou próximos de casa, foi o tipo de evento que nunca pensei realmente em participar antes. Até por, em certos sentidos, não estar também tão confortável assim. Comentei com os outros, inclusive, sobre como em outras condições provavelmente não teria nunca experienciado isso, tanto por não saber como, quanto por ser fora do que sou acostumada. Fiquei feliz de viver essa situação nova. Fugir da zona de conforto. Principalmente porque foi ao lado de pessoas com quem me identifiquei e ando chamando facilmente de amigos desde o início das aulas, e tornaram tudo nesse projeto uma coisa mais leve e divertida. Assim, foi algo fascinante e gostei bastante.
João Victor

Foi uma experiencia muito boa, em suma, o que era pra ser um trabalho acabou virando o "planejamento" de um dia inteiro, como eu e outras pessoas somos de São Paulo capital, não teríamos como voltar pós aula e comparecer no evento, então ficamos até o horário marcado que era 19h30, e isso deu margem pra almoçarmos, andar mais pela faculdade mesmo que o dia estivesse bem frio, dizer que iriamos estudar e na verdade fazer coisas fúteis, e nisso foram umas 4 horas, e então 17:30 da tarde começamos as preparações de fato para ir no evento.
Saímos da faculdade, eu, Clara, Nyck, Ana para encontrar com a Ju, iriamos comer num Mequi que tem nos arredores de SB pra posteriormente ir ao evento, como já tínhamos alguma boa intimidade, ficamos conversando bastante sobre esse inicio de faculdade, e coisas em comum que a gente gostava no geral, talvez uma das melhores partes do dia. Depois disso dividimos um uber até a Praça Matriz, local do evento, chegamos antes para acompanhar a montagem e nos orientarmos bem sobre o lugar, e fotografar o ambiente para ter um antes e depois. Não demorou muito pra encher, e com isso chegar bastante gente fumando maconha, consumindo bebidas e afins, mas também diversas pessoas com familiares ou crianças, tanto que algo que me chamou bastante atenção é que ficar mais pra noite, houve por parte da equipe do evento um pedido para que as pessoas dispersassem e respeitassem o fato de ter crianças no local, na tentativa de diminuir isso, porém pra noite já era predominante no local o público consumindo isso.
Bom o fato é que se eu não estivesse a trabalho lá essa experiencia teria sido muito mais proveitosa, pois poderia fumar e aproveitar por completo como se deveria o espetáculo. Mas apenas observando as batalhas já deu pra ver como seria algo legal, um evento que de fato eu voltaria se morasse nas proximidades, as apresentações dos convidados foram em maioria muito boas, era uma batalha temática com mc's do funk, e a capacidade de freestyle deles de fato me impressionou. Por conta do horário e da distância de volta que eu precisaria percorrer, fora o fato de alguns dos membros do grupo realmente não estarem habituados com o forte cheiro que estava lá, nós decidimos voltar.
Dividi um uber até a estação com a Julia e um amigo nosso que do outro grupo que também estava lá no dia, que foi uma grata surpresa apesar de não termos combinado nada, viemos conversando, e depois disso ainda tive que fazer meu caminho habitual, o que leva mais cerca de 1h40, então cheguei em casa quase 23h30 da noite, num dia que sai 4h da manhã e infelizmente acabei perdendo o horário da aula no outro dia. Se tirar todas essas adaptações que tive que fazer, se fosse só o planejamento de ir a um evento, com certeza eu faria isso de novo com essas pessoas, esse foi o trabalho que ocasionalmente juntou o grupo que em 5 anos de graduações que eu já passei, tem sido o mais tranquilo e em paz de trabalhar.
Júlia

O dia hoje foi bem divertido, passamos bastante tempo juntos por causa da atividade do DCE que fomos. Almoçamos com o grupo, depois ficamos só conversando até de tarde, depois voltei para casa e o pessoal passou no meu prédio para irmos juntos para o Mc Donalds. Achamos melhor comer antes de ir e foi bem divertido, comemos lanches e dividimos nuggets e ficamos conversando sobre nossos gostos pessoais.
Estávamos em 5 e dividimos em dois Uber para ir até a Praça da Matriz, chegamos e nos encontramos com a Marcela, tiramos várias fotos e depois esperamos a batalha começar.
Eu achei o ambiente completamente desagradável, o cheiro de maconha estava muito forte, tinha bastante drogas e bebidas, mas as pessoas eram bem legais. Conseguimos fazer algumas entrevistas e conhecer mais do lado de quem frequenta o local é bem interessante.
Assistimos a batalha e é bem diferente, achei incrível a capacidade deles de pensar nas rimas tão rápido. Hoje foi uma versão funk e foi um pouco diferente, mas com a mesma essência.
Depois já não estávamos mais nos sentindo bem com o ambiente, o cheiro incomodava muito, estava incomodada e o pessoal precisava ir embora porque moram longe e aproveitei e fui também.
Peguei um Uber com o João e com o Jon do outro grupo, eles também foram no mesmo dia que a gente e foi uma baita surpresa encontrar eles lá. Viemos conversando e comendo resto de nuggets e batata frita que tinha sobrado e foi bem gostoso.
Cheguei em casa um pouco atordoada com o barulho e o choque de realidade com o ambiente que não gostei, mas o conteúdo da batalha em si achei incrível. Foi uma experiência muito diferente de tudo que estou acostumada, vivenciar uma outra realidade é desafiador e faz abrir sua mente de muitas maneiras.
Lisa

Frequentar as batalhas de rap na Praça da Matriz em São Bernardo do Campo é uma experiência única. É um evento aberto, o que facilita o encontro com amigos e a formação de novas conexões. Apesar de a praça parecer pequena, há uma sensação de dispersão quando você está cercado por tantas pessoas.
No início, eu estava bem focada nas batalhas, mas à medida que o tempo passou, acabei me afastando um pouco para conversar com outros amigos. O assunto principal entre as pessoas era sempre o rap e a interação entre elas. O mais interessante das batalhas é que elas promovem um ambiente onde é fácil encontrar e se conectar com amigos, resolvendo assim a questão de onde se encontrar.
Na minha primeira vez na batalha, eu me senti bastante insegura. Não conhecia o local e achava o ambiente muito aberto. Além disso, havia um certo estereótipo sobre o tipo de pessoas que frequentavam o lugar, o que me causava preconceito. No entanto, ao passar um tempo lá, comecei a me sentir mais segura e o preconceito que eu tinha foi sendo desconstruído. Lembro até que, em uma das batalhas, um dos rappers comentou que ninguém ali ia roubar meu celular porque "ninguém aqui é PM". Além de ser engraçado, eu me senti mais confortável e acolhida.
Apesar de, no começo, me sentir deslocada por ser uma realidade muito diferente da minha, agora percebo que há um verdadeiro acolhimento no ambiente. A batalha de rap, além de ser um evento incrível, é também uma oportunidade de superação de preconceitos e integração com a comunidade. Após o evento, costumamos nos encontrar com amigos na porta do Ragazzo, conversando e refletindo sobre a noite. É sempre um momento agradável e enriquecedor.
Marcela

A batalha da matriz é uma dessas experiências que divide os homens dos meninos, as mulheres das meninas, os adultos das crianças… no dia que fomos na batalha eu acordei passando mal, nem fui para a faculdade para me recuperar e ir à noite na batalha. Sai de casa e foi rapidinho o trajeto até a igreja da matriz, chegando lá me deu um frio na barriga de não saber se íamos conseguir fazer o trabalho como planejado, se seríamos aceitos naquele lugar, mas não precisou nem de dez minutos na batalha para ter a certeza de que todos nós somos parte desse lugar.
Quando começaram as rimas e estávamos gritando "só tem duas opções qual que você vai escolher? Vai morrer ou vai matar? Vai matar ou vai morrer?" tudo sumiu e o beat de rap tinha os mesmos "bpm" que o beat do meu coração! A batalha foi ótima, encontramos os companheiros dos outros grupos e curtimos juntos aquele momento e isso é a batalha da matriz, essa exata união, onde não importa da onde você veio nem para onde você vai, não importa se quem está do meu lado é do grupo "concorrente" ao meu… na matriz todo mundo é um só, porque o rap é isso, é a união que dá sentido para vida.
Cheguei em casa tão extasiada do que tinha presenciado, minha mente não parava de pensar em quão incrível é a arte de rimar palavras ali no "free" e dar sentido para cada frase. No outro dia quando acordei tudo que eu queria era voltar para a matrix, e assim eu fiz nas duas semanas seguintes. "O rap é compromisso" eu ouço isso dos meus tios desde que sou criança mas só vivendo o rap que eu entendi o que essa frase quer dizer, ver o comprometimento de cada indivíduo para manter a cena cultural de rua em pé mesmo com todos os contratempos me muniu com força e coragem para me orgulhar da cultura popular periférica e lutar para manter espaços como este sempre vivos.
Coloco aqui para finalizar meu relato um adendo de uma semana que fui na batalha e tinham muitas viaturas da GCM na praça, eu achei estranho mas não dei muita bola, até que em momento quase no final da batalha, já estava nos rounds de semi, começou uma gritaria e correria. Na hora eu me assustei muito, mas no mesmo momento os organizadores da batalha pararam o round e começaram a falar pro povo chegar mais perto do banco e fechar a roda, nessa hora todos ali começaram a se proteger e se aproximar da batalha… todo o meu medo sumiu. Um dos apresentadores da batalha, o Ratão falou: "isso aqui não é só música e arte isso aqui é um movimento político" essa frase me marcou muito quando vi que de fato a batalha da matriz é resistência! É resistência política, cultural, social e um lugar de ajuda e cura para muitos que são salvos pelo rap.
Nycolas

Passamos praticamente o dia todo juntos. Tivemos nossas aulas, almoçamos no RU, fomos pro aulão do DCE e depois disso ficamos jogando e conversando pelo campus até dar o horário de irmos para a batalha.
Nós marcamos de comer no mc do Carrefour antes de irmos, foram eu, o João, a Ana, a Clara e a Júlia. Depois de comer e dar umas boas risadas nós nos dividimos em dois ubers para conseguirmos ir até a Igreja da Matriz, onde nos encontramos com a Marcela e a Lisa.
Ao chegar achei o ambiente incrível logo de cara. A igreja é linda e todo o espaço onde a batalha acontece é bem localizado. Tinham pessoas vendendo bebida, outras dançando e cantando, algumas andando de bike; um ambiente totalmente descontraído com uma energia festiva. Tinha bastante gente fumando, o cheiro não chegou a me incomodar então não me importei.
Uma coisa que eu não esperava que fosse acontecer era o outro grupo que vai falar sobre a Batalha da Matrix estar presente no mesmo dia que nós. Nos encontramos enquanto meu grupo se preparava pra fazer as primeiras gravações e foi uma surpresa pra geral. Passamos alguns minutos fazendo piada e trocando ideia até que cada um voltasse para as suas obrigações.
Assistimos a batalha e fiquei encantado com a forma que todo mundo ali interagia e curtia o som. Durante as apresentações conseguimos algumas entrevistas, fotos e gravações que sem dúvidas ficarão guardadas no meu coração.
Nós não conseguimos ficar até o final pois tínhamos aula no dia seguinte, então fomos embora logo depois do primeiro intervalo.
Eu passei o dia todo sem sono algum, mas foi só chegar em casa que eu simplesmente apaguei, mal me lembro daquele resto de noite depois que saí do uber pra entrar em casa. Eu fiquei exausto, mas com certeza faria tudo de novo.